A IA que encontra os trabalhos a mais antes do subempreiteiro
Uma ficha técnica descreve como o material se aplica. O mapa de quantidades descreve o que se paga. Quando os dois não batem certo, nasce um pedido de trabalhos a mais. A IA da Janua Obras cruza os dois e encontra as etapas sem artigo antes de alguém as reclamar.
Engenheiro Civil · OE n.º 90252 (OERN) ·

Os trabalhos a mais não aparecem do nada. Quase sempre já estavam escritos num documento que ninguém cruzou com o orçamento.
Muitas vezes esse documento é a ficha técnica.
A ficha técnica diz como o material se aplica. Que preparação pede, que produto vai antes e que produto vai depois. O mapa de quantidades diz o que se paga.
Quando um processo tem sete passos e o mapa só paga quatro, os outros três vão aparecer mais tarde. Numa fatura.
O pedido de trabalhos a mais já está escrito na ficha técnica. Só falta alguém o ler.
Um exemplo
Vimos isto acontecer há umas semanas numa obra acompanhada na Janua Obras. A obra ainda está a decorrer, por isso mudámos o material e os números. O raciocínio é o mesmo.
Imagine a impermeabilização de um terraço. O subempreiteiro submete para aprovação o sistema de membrana betuminosa que vai aplicar. Vem com as fichas técnicas, como é normal.
Com as fichas na obra, o diretor faz ao assistente a pergunta que mais interessa.
«Segundo estas fichas técnicas e um processo construtivo bem feito, que argumentos pode o subempreiteiro usar para pedir trabalhos a mais, tendo em conta o que está orçamentado no mapa de quantidades?»
O assistente lê as fichas, vai ao capítulo do mapa e põe as duas coisas lado a lado.
Sete etapas na ficha, quatro artigos no mapa
As fichas descrevem o sistema em sete etapas. O mapa de quantidades tem quatro artigos para o mesmo trabalho.
| Etapa descrita nas fichas técnicas | Artigo no mapa |
|---|---|
| 1. Limpeza e preparação do suporte | 4.1 |
| 2. Primário betuminoso | Não existe |
| 3. Banda de reforço nos ângulos e remates | Não existe |
| 4. Membrana betuminosa em duas camadas | 4.2 |
| 5. Ralos com aba de ligação à membrana | Não existe |
| 6. Geotêxtil de separação | 4.3 |
| 7. Camada de proteção | 4.4 |
Três operações que as fichas exigem e que ninguém orçamentou. Uma delas com peças próprias, que o terraço não tem.
A resposta não fica pelo aviso. Antecipa o argumento que o subempreiteiro vai usar. Sem primário a membrana não adere e sem reforço nos remates o fabricante não dá garantia ao sistema. Logo, seria trabalho a mais.
A defesa, preparada antes do pedido
Depois vem a parte mais útil. O assistente separa o que se pode recusar do que se tem de aceitar.
O que se defende. O caderno de encargos diz que os trabalhos não especificados mas necessários ao perfeito cumprimento da empreitada se consideram incluídos. O primário é indispensável a qualquer membrana betuminosa. E o artigo 4.2 fala em fornecimento e aplicação do sistema de impermeabilização, por isso o primário faz parte dele.
Há mais. Este sistema foi proposto pelo próprio subempreiteiro, num boletim de aprovação de materiais, em substituição do que estava especificado. Dificilmente pode agora cobrar à parte o que o seu sistema exige.
O que não se paga. A banda de reforço nos ângulos e remates é parte de qualquer impermeabilização bem feita. Não é trabalho a mais.
O que se concede. Os ralos com aba são peças novas, que substituem os existentes. Nenhum artigo do mapa os prevê. Se houver alguma coisa a pagar, é o fornecimento dos ralos. Nunca a mão de obra dos remates, que pertence ao artigo 4.2.
O assistente aponta ainda um sinal para a medição. O mapa mede a impermeabilização em área de pavimento. A ficha pede que a membrana suba pelo menos 20 centímetros nos paramentos. Num terraço com 60 metros de perímetro são mais 12 metros quadrados que ninguém mediu. Aqui o subempreiteiro tem razão. Convém sabê-lo antes de ele o pedir.
A discussão dos trabalhos a mais faz-se antes do pedido e não depois da fatura.
Porque é que isto costuma escapar
As fichas técnicas chegam com os boletins de aprovação de materiais. Quem as lê está a ver se o material cumpre o caderno de encargos. É a pergunta certa para aprovar o material. Não é a pergunta que encontra os trabalhos a mais.
Para os encontrar é preciso ler o processo de aplicação etapa a etapa e procurar cada etapa no mapa de quantidades. Numa obra com mais de 500 artigos ninguém faz isto para cada material. Não por desleixo. Por falta de horas.
A IA faz porque tem tudo na mesma conversa. As fichas técnicas dos boletins, o mapa de quantidades com os descritivos de cada artigo e o caderno de encargos.
O que fazer com o aviso
Um alerta só vale alguma coisa se chegar a tempo. A recomendação é pedir já ao subempreiteiro, por escrito, a análise de preço do que pode vir a ser reclamado. E fixar a posição da obra antes de o pedido chegar.
Na Janua Obras basta fazer a pergunta. O assistente da obra responde com as etapas, os artigos e a cláusula. Cada coisa que diz pode ser conferida.
Tem uma obra com materiais por aprovar? Experimente perguntar o mesmo. Que trabalhos exigem estas fichas que o mapa não paga?
Cada etapa da ficha técnica sem artigo no mapa é um trabalho a mais à espera de ser pedido.
