Leasing Financeiro vs. Leasing Operacional
Quando uma empresa precisa de adquirir um equipamento, uma viatura ou outro ativo essencial à sua atividade, surge quase sempre a mesma dúvida: comprar, recorrer a crédito bancário ou optar por leasing?
Dentro do leasing, existem duas modalidades principais: leasing financeiro e leasing operacional, que, apesar de parecerem semelhantes, têm impactos muito diferentes na gestão, na contabilidade e na estrutura financeira da empresa.
Neste artigo explico, de forma simples e prática, o que distingue estas duas soluções, quais as vantagens e desvantagens de cada uma e como afetam financeiramente uma empresa, recorrendo a exemplos concretos.
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O que é o leasing?
O leasing é uma forma de financiamento por capital alheio, muito utilizada pelas empresas para financiar ativos não correntes, como equipamentos industriais, viaturas ou tecnologia.
Na prática, a empresa utiliza um bem mediante o pagamento de rendas periódicas, sem ter necessariamente de o comprar de imediato.
Apesar de o funcionamento parecer simples, o impacto do leasing depende muito do tipo de contrato celebrado.
Leasing financeiro
No leasing financeiro, o objetivo principal é o financiamento da aquisição do bem.
A empresa escolhe o equipamento, a entidade de leasing compra-o e cede-o à empresa mediante rendas periódicas. No final do contrato, existe normalmente uma opção de compra, por um valor residual previamente definido.
As características principais são:
O bem está associado economicamente à empresa utilizadora
Existe intenção de ficar com o ativo no final do contrato
O contrato cobre, em regra, grande parte da vida útil do bem
O leasing funciona de forma muito próxima a um empréstimo bancário
Exemplo prático
Uma empresa industrial precisa de uma máquina no valor de 100.000 €.
Opta por um leasing financeiro a 6 anos, pagando rendas mensais.
No final, exerce a opção de compra por 20.000 € e passa a ser proprietária da máquina.
Na prática, a empresa financiou o equipamento ao longo do tempo, preservando liquidez inicial.
Leasing operacional
No leasing operacional, o foco já não é a aquisição do bem, mas sim a utilização temporária.
Aqui, a empresa paga para usar o ativo durante um determinado período, sendo comum que o contrato inclua manutenção, assistência técnica, seguros ou substituição do bem. No final, o bem é devolvido.
Quais as características principais:
Não existe intenção clara de compra
O risco de obsolescência é, em grande parte, do locador
O contrato é mais curto e flexível
O leasing aproxima-se de um serviço, não de um financiamento clássico
Exemplo prático
Uma empresa comercial necessita de uma frota de viaturas.
Opta por leasing operacional com manutenção incluída, pneus, seguro e viatura de substituição.
Ao fim de 4 anos, devolve os veículos e celebra um novo contrato com viaturas mais recentes.
Aqui, a empresa compra previsibilidade de custos e flexibilidade, não ativos.
Vantagens e desvantagens de cada modalidade
Leasing financeiro - vantagens
Permite adquirir ativos sem grande esforço inicial de tesouraria
Possibilidade de ficar com o bem no final
Adequado para equipamentos estratégicos e de longa duração
Normalmente mais barato no longo prazo do que o leasing operacional
Leasing financeiro - desvantagens
Menor flexibilidade contratual
A empresa assume o risco de obsolescência
Impacta o endividamento da empresa
Menor facilidade de substituição do ativo
Leasing operacional - vantagens
Elevada flexibilidade
Custos previsíveis (manutenção e serviços incluídos)
Redução do risco de obsolescência
Ideal para ativos sujeitos a rápida evolução tecnológica
Leasing operacional — desvantagens
Normalmente mais caro no longo prazo
A empresa não cria património
Não existe benefício de valorização do ativo
Dependência contínua do fornecedor
E na contabilidade?
A diferença entre leasing financeiro e leasing operacional não é apenas contratual ou financeira, é sobretudo contabilística.
Cada modalidade entra de forma distinta no balanço, na demonstração de resultados e até na fiscalidade associada (IRC, IVA e impostos como o IUC, no caso das viaturas).
Perceber esta diferença é essencial para quem gere uma empresa, porque afeta rácios financeiros, resultados e decisões futuras de investimento.
Leasing financeiro: tratamento contabilístico
No leasing financeiro, a substância económica do contrato prevalece sobre a forma jurídica. Apesar de o bem não estar legalmente em nome da empresa no início, é tratado contabilisticamente como se fosse seu.
Entrada no balanço
O bem entra no ativo não corrente (ativo fixo tangível), pelo valor atual das rendas ou pelo justo valor do bem, se inferior.
Em simultâneo, é reconhecido um passivo em “Financiamentos obtidos” (capital alheio), refletindo a dívida à entidade de leasing.
Na prática, é muito semelhante a comprar o bem com recurso a um empréstimo bancário.
Rendas pagas
Cada renda é dividida em duas componentes:
Amortização de capital: reduz o passivo no balanço
Juros: registados como gasto financeiro na demonstração de resultados
Depreciações
O ativo é depreciado pela empresa, ao longo da sua vida útil.
A depreciação é um gasto contabilístico e fiscalmente relevante, reduzindo o resultado tributável.
Impacto fiscal
Juros: dedutíveis em IRC (com os limites legais aplicáveis)
Depreciações: fiscalmente aceites dentro das taxas máximas
IVA: regra geral, dedutível à medida que incide sobre as rendas (dependendo do tipo de bem e da atividade da empresa)
IUC (viaturas)
No leasing financeiro, o IUC é pago pela empresa utilizadora, pois é quem assume os riscos e benefícios económicos do bem.
Leasing operacional: tratamento contabilístico
No leasing operacional, o bem não é considerado um ativo da empresa. A lógica aqui é simples: a empresa paga pela utilização, não pela aquisição.
Entrada no balanço
Não existe reconhecimento do ativo
Não existe passivo financeiro associado
O balanço mantém-se mais “leve”, sem aumento do endividamento
Rendas pagas
As rendas são registadas diretamente como gastos operacionais (normalmente em fornecimentos e serviços externos)
Não existe separação entre capital e juros
Depreciações
Não há depreciações, porque o ativo não pertence à empresa
A depreciação é feita pela entidade proprietária do bem (locador)
Impacto fiscal
Rendas: dedutíveis como custo fiscal, desde que relacionadas com a atividade
IVA: regra geral, dedutível nas rendas (com limitações específicas, por exemplo em viaturas ligeiras de passageiros)
IUC (viaturas)
No leasing operacional, o IUC é normalmente suportado pela entidade de leasing, estando muitas vezes incluído na renda mensal.
Impacto do leasing na empresa
Independentemente da modalidade, o leasing tem impacto direto na estrutura financeira da empresa.
Liquidez: preserva caixa, evitando grandes investimentos iniciais
Endividamento: no leasing financeiro, aumenta o passivo da empresa
Resultados: as rendas afetam os custos operacionais
Planeamento financeiro: introduz compromissos de médio e longo prazo
Decisões de investimento: permite alinhar o financiamento com a vida útil dos ativos
Do ponto de vista da gestão, o leasing deve ser analisado em conjunto com o tipo de ativo, a estratégia da empresa e a sua capacidade financeira, e não apenas com base no valor da prestação mensal.
Conclusão
Não existe uma resposta universal para a pergunta: leasing financeiro ou leasing operacional?
A escolha certa depende de como a empresa vê o ativo:
Se o ativo é estratégico, durável e essencial ao negócio, o leasing financeiro tende a fazer mais sentido.
Se o ativo é substituível, sujeito a obsolescência ou intensivo em manutenção, o leasing operacional é muitas vezes a solução mais inteligente.
Mais do que escolher o contrato “mais barato”, uma boa decisão de leasing é aquela que melhor se encaixa na estratégia, na tesouraria e na estrutura financeira da empresa.

