JANUA

A cave que mete água no primeiro inverno

A obra acaba no verão. Em novembro aparece a primeira mancha na parede da cave. Quase nunca está onde está o defeito. A impermeabilização de uma cave decide-se antes do aterro. Depois disso cada correção é feita às cegas e pelo lado errado.

Manuel Passos
Manuel Passos

Engenheiro Civil · OE n.º 90252 (OERN) ·

A cave que mete água no primeiro inverno

Uma cave impermeabiliza-se uma vez. Antes do aterro.

Depois de a terra encostar ao muro, tudo o que se faz é pelo lado de dentro. É o lado errado. A água está a empurrar de fora e a reparação está a tentar segurá-la de dentro.

O que não ficou bem feito antes do aterro corrige-se às cegas.

A maior parte das caves que metem água foram entregues secas. A obra acaba no verão, o terreno está seco, ninguém vê nada. Em novembro chove três semanas seguidas, o nível de água no terreno sobe e aparece a primeira mancha.

A água quase nunca aparece onde está o defeito

É a primeira coisa que engana quem tenta resolver.

Uma membrana colada ao muro só deixa entrar água no sítio onde está rasgada. Uma membrana que não está totalmente aderida é outra história. A água entra pelo rasgo, corre entre a membrana e o betão e procura o ponto mais fraco do muro. Uma junta de betonagem, um tirante de cofragem mal selado, um tubo que atravessa a parede.

A mancha aparece aí. Pode estar a três metros do rasgo. Pode estar noutra parede.

Quem repara a mancha está a reparar a saída da água, não a entrada. Injeta-se a junta e a mancha seca. Passado um mês aparece outra mais ao lado. A água não desapareceu. Mudou de caminho.

Onde é que a água entra

Num muro de cave bem betonado, o betão em si raramente é o problema. A água entra pelas descontinuidades.

  • As juntas de betonagem. Entre a sapata e o muro, entre dois troços de muro, entre o muro e a laje. Cada betonagem que para e recomeça deixa uma junta. Cada junta é um caminho.
  • Os atravessamentos. Tubos de esgoto, de águas pluviais, de eletricidade, de gás. Cada furo no muro tem de ser selado do lado de fora, com peça própria. Um tubo metido num negativo e cheio de argamassa não é estanque.
  • Os tirantes de cofragem. Os furos que ficam no muro depois de descofrar. Se não forem selados com tampões próprios, são dezenas de furos a atravessar o muro de lado a lado.
  • O remate no topo. Onde a membrana acaba, junto à cota do terreno. Se não ficar presa e protegida, a água da chuva entra por trás dela e desce pelo lado errado.
  • O aterro. Brita e pedra atiradas por uma retroescavadora contra uma membrana sem proteção. A membrana estava perfeita até essa tarde.

Três camadas, não uma

Uma cave seca não depende só da membrana. Depende de três coisas a trabalhar juntas.

Corte de um muro de cave com membrana, placa drenante, brita em geotêxtil e tubo drenante ao nível da sapata

Drenar. Tirar a água de junto do muro antes de ela ganhar pressão. Um tubo drenante ao nível da sapata, envolvido em brita e em geotêxtil para não colmatar com a terra, com pendente e com saída para algum lado. Encostada ao muro, uma placa drenante (as placas de plástico com relevo) que deixa a água descer até ao tubo em vez de ficar parada contra a parede.

Um dreno sem saída não drena. Junta água junto à sapata, que é exatamente onde não a queremos.

Impermeabilizar. A membrana, a pintura betuminosa ou o sistema escolhido, aplicado sobre betão limpo e regularizado, com sobreposições seladas e com os cantos reforçados. Quanto mais aderida ao muro, menos a água consegue viajar por trás dela.

Proteger. A placa drenante faz muitas vezes este papel. Seja qual for a solução, a membrana não pode ficar exposta ao aterro.

Uma membrana sem drenagem está a segurar a água toda sozinha. Mais cedo ou mais tarde perde.

As juntas resolvem-se antes de betonar

A junta de betonagem é o ponto mais vulnerável de quase todas as caves. E é das poucas coisas que só se resolvem no momento certo.

Antes de betonar o muro, coloca-se na junta uma banda de estanquidade. Pode ser uma banda de PVC que fica meio no betão antigo e meio no novo. Pode ser uma banda hidroexpansiva, que incha ao contacto com a água e fecha o caminho. Pode ser um tubo de injeção, que fica embebido e permite injetar resina mais tarde, se for preciso, sem abrir nada.

Depois de betonada, a junta já não aceita nenhuma destas soluções. O que sobra é injetar a partir de dentro e esperar que resulte.

Quando não há lado de fora

Em obra urbana, muitas caves encostam ao prédio do lado ou à rua. O muro é feito contra uma contenção, uma parede de estacas ou um muro de Berlim. Não há espaço para ninguém passar por fora a aplicar uma membrana.

Aqui a impermeabilização tem de ser pensada antes do muro existir. Há sistemas próprios, aplicados contra a contenção antes de betonar, que ficam aderidos ao betão novo pelo lado de fora. Se ninguém os previu, a cave fica a depender do próprio betão e das juntas.

É uma decisão de projeto e de orçamento. Não se improvisa em obra no dia em que se começa a armar o muro.

Dois casos que vimos de perto

O muro com mais de cinquenta anos. No inverno de 2022, durante as cheias no Porto, acompanhámos a derrocada de um muro de suporte em pedra. Tinha mais de cinquenta anos e nunca tinha dado sinal.

O muro não caiu por ser velho. Caiu porque a água que chegava por trás dele não tinha para onde ir. Sem encaminhamento, a água foi abrindo vazios no solo e foi carregando o muro. Até ao dia em que choveu mais do que o costume.

Na reconstrução manteve-se a pedra. O que mudou foi a água. Deixaram-se vazios no muro para a deixar sair e refez-se a rede de drenagem pluvial, com caixas de visita novas para se poder inspecionar. Contámos o caso, com as fotografias, neste artigo.

Um muro de cave é um muro de suporte com uma casa do lado de dentro. A água que não se encaminha empurra.

A parede dupla que escondia a água. Noutra obra entrámos já com parte da estrutura feita. As paredes da cave tinham sido forradas por dentro com um segundo pano de alvenaria. A cave parecia seca.

No primeiro inverno a mancha apareceu. A infiltração já lá estava antes de entrarmos. A parede dupla só a tinha escondido. A água esteve meses a correr num sítio onde ninguém a via.

Uma parede que tapa a infiltração não a resolve. Adia o dia em que se dá por ela.

Quem entra numa obra a meio herda o que está por trás das paredes. Nesse momento, as fotografias de quem lá esteve antes valem mais do que qualquer vistoria.

O que verificar antes do aterro

Se tem uma obra com cave, há um momento em que vale a pena estar presente. É quando a impermeabilização está aplicada e o aterro ainda não começou. Depois disso não há mais nada para ver.

  • As juntas de betonagem levaram banda de estanquidade?
  • Todos os atravessamentos têm peça de selagem própria?
  • Os furos dos tirantes estão tapados?
  • A membrana está inteira, com sobreposições seladas e cantos reforçados?
  • Há proteção entre a membrana e o aterro?
  • O tubo drenante tem pendente e saída?
  • O remate superior está preso e acima da cota do terreno?

Fotografe tudo. Com data e com a localização no desenho. Se a cave meter água daqui a dois invernos, estas fotografias são a única forma de saber o que está por trás da terra.

A cave seca não se vê. Vê-se a cave que mete água. E aí já é tarde para ver o resto.